Posts Tagged ‘peja’

  • Sara, a Negra: de Escrava a Santa, Protetora dos Povos Tradicionais na Pandemia

    Date: 2020.08.18 | Category: CECMundoRural | Response: 18

    Os ciganos são reconhecidos no Brasil como um grupo étnico dentre os diversos povos tradicionais, assim como os caboclos, caiçaras, extrativistas, indígenas, jangadeiros, pescadores, quilombolas, ribeirinhos, seringueiros e os caipiras (Cf. Villela, 2016). Os grupos ciganos são múltiplos (Calon, Sinti, Rom) e em número significativo por território brasileiro. Diante da pandemia do novo Covid-19 no Brasil, ativistas e pesquisadores alertam para o racismo contra grupos ciganos (ciganofobia) e cobram por uma ação do Estado para garantir a estas famílias o cumprimento das políticas públicas particulares em suas perspectivas de vida (Cf. Maia e Monteiro, 2020).

    Nesse momento associações ciganas, grupos de pesquisa, ativistas e pesquisadores, vêm denunciando o descaso e a forma racista com que algumas cidades brasileiras estão tratando as comunidades ciganas nômades/itinerantes durante a pandemia do Covid-19. Segundo a Associação Social de Apoio Integral aos Ciganos (ASAIC), diversas cidades expulsaram de seus territórios de pouso, nos últimos meses, grupos de ciganos Calon que vivem de forma itinerante (Cf. Nota Pública em Apoio aos Povos Ciganos).

    O espírito cigano é composto daquele “romantismo revolucionário”, de revolta contra um sistema económico, social e político, considerado como desumano, intolerável, opressor e filistino, carregado de esperanças utópicas, sonhos libertários e surrealistas, explosões de subjetividade, imagens-de-desejo, que são não somente projetadas num futuro possível, uma sociedade emancipada, sem alienação, reificação ou opressão (social ou de gênero), mas também, imediatamente, experimentadas em diferentes formas de prática social que se expressam, por exemplo, no culto a Sara Kali (Cf. Löwy, 2008).

    Santa Sara Kali, é a santa protetora do povo cigano, foi canonizada em 1712 pela igreja Católica, mas até hoje ela omite seu culto. Talvez por falta de dados históricos seguros. Há muita lenda sobre Santa Sara Kali. O termo Kali significa “a negra”, porque sua pele era escura. Seu culto está ligado ao culto das Madonas Negras e os festejos da santa ocorrem no dia 24 de maio com procissão e banhos no mar. A imagem de Santa Sara é vestida de azul, rosa, branco e dourado. São colocados na imagem adorno de flores, joias e lenços coloridos para que ela seja levada para a procissão no mar. Os devotos buscam a obtenção das graças nos olhos da santa, pois nos olhos de Santa Sara tudo está contido: a força de Deus, a força da mãe, a força do amor da irmã e da mulher, a força das mãos, a energia, o sorriso, a magia do toque e a paz. E assim, todos que buscam graças no seu olhar, retornam sempre aos pés de Santa Sara para agradecer (Cf. Arquidiocese de São Paulo, 2020) .

    As lendas identificam Sara como a serva de uma das três mulheres de nome Maria que estavam presentes à crucificação de Jesus. Algumas falam que ela seria serva e parteira auxiliar de Maria, e que Jesus, por esta tê-lo trazido ao mundo, teria uma alta estima por ela. Outras, que era serva de Maria Madalena. Seu centro de culto é a cidade de Saintes-Maries-de-la-Mer, na França, onde ela teria chegado junto com Maria Jacobina, irmã de Maria, mãe de Jesus, Maria Salomé, mãe dos apóstolos Tiago e João, Maria Madalena, Marta, Lázaro e Maxíminio. Eles teriam sido jogados no mar em um barco sem remos nem provisões, e Sara teria rezado e prometido que se chegassem a salvo em algum lugar ela passaria o resto de seus dias com a cabeça coberta por um lenço. Eles depois disso chegaram a Saintes-Maries, onde algumas lendas dizem, foram amparadas por um grupo de ciganos. A imagem de Santa Sara fica na cripta da igreja de Saint Michel, onde estariam depositados seus ossos (Cf. Wiki, 2020).

    Em tempos de Covid-19, a “mística” presente no culto a Sara Kali possibilita aquilo que Löwy (2005) chama de “apropriação da alma encantada”. No texto de Löwy (2005), encontramos uma definição original, portadora de exaltação romântica, de ironia polêmica, contra as interpretações positivistas e/ou cientificistas da significação humana e espiritual de uma nova civilização. Apoiado em Mariátegui, afirma que a força dos romântico-revolucionários não reside na sua ciência e sim na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. É uma força religiosa, mística, espiritual. É a força do mito. A emoção revolucionária é uma emoção religiosa. Sara, a Negra, com sua alma encantada, proteja os povos tradicionais durante a Pandemia! Deixe um comentário no nosso blog de aula. Obrigado!

    Referências em ordem de citação no texto

    Fábio Fernandes VILLELA (2016). Comunidades tradicionais e preconceito: subsídios para formação de professores. DOI: https://doi.org/10.14210/contrapontos.v16n1.p78-97

    Cleiton M. MAIA e Edilma do Nascimento J. MONTEIRO (2020). Um panorama sobre os grupos Ciganos e a Covid19 no território brasileiro. Link: http://anpocs.org/index.php/publicacoes-sp-2056165036/boletim-cientistas-sociais/2357-boletim-n-42-cientistas-sociais-e-o-coronavirus

    Nota Pública em apoio aos Povos Ciganos: https://aeecmt.blogspot.com/2020/04/nota-publica-pesquisadores-e-ativistas.html?m=1

    Michel LÖWY (2008). O romantismo revolucionário. Link: https://www.esquerda.net/dossier/o-romantismo-revolucionário

    Michel LÖWY (2005). Mística revolucionária: José Carlos Mariátegui e a religião. DOI: https://doi.org/10.1590/S0103-40142005000300008

    Santa Sara Kali | Arquidiocese de São Paulo: http://www.arquisp.org.br/liturgia/santo-do-dia/santa-sara-kali

    Sara Kali | Wikipédia.

    Música: SANTA SARAH KALÍ Mãe dos Filhos do Vento – Letra: Vaine Darde – Música: Raúl Quiroga: https://www.youtube.com/watch?v=-7LttsqJpZA

  • Pandemia, Terceira Idade, Necropolítica e… Utopias

    Date: 2020.04.18 | Category: CECMundoRural | Response: 19

    PRETO VELHO E PRETA VELHA ( ADOREI AS ALMAS)

    Diante da Pandemia do Coronavírus, uma questão importante que aprendemos ao estudar, cantar e dançar o jongo foi o respeito aos mais velhos, a nossa ancestralidade. Na estrutura do jongo, no ponto, há um código secreto que os senhores dos escravos não conseguiam decifrar. Percebe-se um processo educativo forte, o respeito aos mais velhos e a ancestralidade. O jongo nos dá a possibilidade de fazer uma ação afirmativa de valorizar a cultura afrodescendente. O jongo ensina a respeitar os mais velhos, valorizar a amizade e desperta o espírito solidário, a criatividade, a sabedoria. São processos que são trabalhados desenvolvendo como uma ação afirmativa de valorização da cultura dos negros escravizados. (Confira a matéria “Jongo: Cultura e resistência da história dos negros podem ser resgatadas com aprendizagem da dança” no link abaixo).

    Esse projeto mencionado chama-se “Cultura Ambiental na Educação de Jovens e Adultos (EJA): Trabalhando com Música e Tecnologias, Enfrentando Preconceitos no Território Caipira” e busca compreender as inter-relações entre a sociedade contemporânea e o fenômeno do preconceito, especialmente o racial. Possui como objetivo o enfrentamento ao preconceito racial, através do desenvolvimento de círculos de cultura. Dentre os resultados esperados, temos a possibilidade de formação diferenciada aos participantes do projeto quanto ao enfrentamento do problema social do preconceito, além de difundir conhecimento gerado na universidade junto à comunidade, incentivar o trabalho cooperativo entre os agentes da universidade e os participantes do projeto e por fim, vislumbrar políticas públicas mais eficientes e eficazes para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). (Vocês podem ver algumas imagens no Facebook do projeto no link a seguir: https://www.facebook.com/groups/1416331928441197/).

    Com relação a população idosa negra, público-alvo desse projeto, o site Geledés (2020) demonstra preocupação durante a Pandemia do Coronavírus e chama atenção para o risco do extermínio de populações negras, sobretudo as mais pobres, em razão da ausência de um atendimento adequado das mesmas pelos nossos sistemas de saúde. É sabido, que os nossos sistemas de saúde devolvem para a população negra um tratamento não isonômico, ao qual podemos definir como uma das manifestações de “necropolíticas do racismo institucional”. Conforme o site: “podemos definir o racismo institucional como práticas não isonômicas realizadas pelos Estados onde a população negra se faz presente, especialmente na política institucional dos órgãos, entidades e serviços delegados de saúde”.

    Outra questão importante, com relação a população idosa, é a colocada por Heloísa Pait, no texto onde afirma que: “com a expectativa de vida se alargando, muitos idosos mantêm vida ativa muito além dos 60 anos, que é quando o risco de vida começa a subir significativamente para a doença causada pelo coronavírus, e às vezes além dos 70 ou 80 anos. Essa atividade pode se dar na continuidade de seu trabalho, gerando renda e às vezes auxiliando os membros mais jovens da família. Pode ser em serviços diretos a esses membros, como cuidar dos mais jovens ou da casa. Essa é uma ajuda significativa, que não deve ser menosprezada. Além disso, muitos idosos ativos, por terem maior experiência de vida, são também referência moral em suas famílias e comunidades, servindo de fonte de conhecimento e norte em momentos de precisão” (Pait, 2020).

    Diante a Pandemia me vem a lembrança o “Princípio Esperança” de Ernst Bloch com sua necessidade de recuperação da Utopia, em nosso caso, a presente no Jongo, com a valorização do idoso, da ancestralidade, descrita no primeiro parágrafo. Para Bloch, a utopia não é algo fantasioso, simples produto da imaginação, mas possui uma base real, com funções abertas à reestruturação da sociedade, engajado em mudanças concretas, visando à nova sociedade. Assim, a utopia se torna viável à medida que possui o explícito desejo de ser realizada coletivamente. (Confira o Princípio Esperança nos vídeos dos links abaixo). E para vocês, queridos jovens, adultos e idosos, qual a sua utopia nesta Quarentena da Pandemia do Coronavírus? Deixe um comentário no nosso blog de aula.

    Muito obrigado, se cuidem! Prof. Fábio Villela.

    Leituras e vídeos sugeridos

    JONGO: Cultura e resistência da história dos negros podem ser resgatadas com aprendizagem da dança: https://avozdacidade.com/wp/jongo-cultura-e-resistencia-da-historia-dos-negros-podem-ser-resgatadas-com-aprendizagem-da-danca/

    A população negra e o coronavírus:

    https://www.geledes.org.br/a-populacao-negra-e-o-coronavirus/

    A vida dos “velhinhos”, as conexões sociais e as lideranças institucionais:

    https://medium.com/pasmas/a-vida-dos-velhinhos-as-conex%C3%B5es-sociais-e-as-lideran%C3%A7as-institucionais-c89dde99cbcd

    Edson Luís de Souza: A necessidade das utopias:

    https://www.youtube.com/watch?v=wnPxzgBeJ6w

    Michael Löwy: Ernst Bloch e a religião como utopia:

    https://www.youtube.com/watch?v=cPAuCC2f_Js

  • Yorimatã Okê Aruê!

    Date: 2020.03.27 | Category: CECMundoRural | Response: 4

    Nenhuma descrição de foto disponível.

    Bom dia querid@s alun@s! Tudo bem com com vcs?

    No dia 13-11-2019 assistimos ao documentário Yorimatã. Gostaria que vcs deixassem um comentário aqui no blog de aula. Quem ainda não assistiu pode assistir/rever em casa. Relembrando… duas mulheres em meio ao movimento hippie dos anos 70 se unem pelo sonho de liberdade. Luhli e Lucina vivem em seu cotidiano criativo de uma comunidade alternativa a experimentação musical radical e se tornam pioneiras no cenário independente brasileiro. Com cerca de 800 composições, do violão aos tambores artesanais que constroem e tocam, dizem não às gravadoras e mergulham na umbanda e na criação artística. Seu companheiro de um relacionamento em trisal, o fotógrafo Luiz Fernando Borges da Fonseca, registra tudo em filmes super 8mm que, unidos a registros de shows por artistas independentes; e as filmagens atuais, recriam seu universo espírito-musical, num filme sobre a liberdade e a busca das raízes primitivas culturais brasileiras.

    Trailer no Youtube:  https://www.youtube.com/watch?v=DIm66b8nEP0

    Filme completo na Plataforma Videocamp: https://www.videocamp.com/pt/movies/yorimata?fbclid=IwAR3NnwqFpNkpvXfmKI7fYIarSMW45Zh1qYrbx_V1mtBB2UhelDuYZ8WDvXQ

    Letra

    YORIMATÃ OKÊ ARUÊ – (Luli e Lucina)

    © Luli e Lucina – Todos os direitos reservados

    ( Primeiro LP de Luli e Lucina lançado em 1979 /Produção independente /Gravadora: Nós lá em casa /Edição : Patricia Ferraz)

    selvagem o corpo afoga todo o medo

    na primeira lágrima

    água chorada em verde escuro pote

    yorimatã okê aruê

    água chorada por milhões de olhos

    pedaços de solidão

    filha da mata tenho a preparar

    yorimatã okê aruê

    abrir caminho fazer bonita a vida

    vida que virá

    penso no escuro, por onde passar?

    yorimatã okê aruê

    a casa teço folhas para abrigar

    o corpo já desfeito de não ser um só

    e faço fogo okê aruê

    ah e espero a aurora

    eu quase dois eu mulher

    ah eu quase árvore, ah eu mulher

    sou sentinela sou sentinela,

    sentinela do amanhecer

    sou sentinela do amanhecer

    matã okê aruê yorimatã

    sou sentinela e aguardo em paz

    a primeira lágrima

    estou sozinha estive e estarei,

    estou sozinha estou sozinha

    e vou duplicar, vou multiplicar o corpo

    matã aruê yorimatã aruê yorimatã yorimatã

    okê aruê okê aruê yorimatã yorimatã yorimatã…

    Violões, Vozes, Zabumba e Tantan: Luli e Lucinha

    Percussão e Apitos: Nacho e Ciça

    Link da música no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=u2p_KjJ9jLo

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