• Ritmos Afro-brasileiros

    Date: 2022.03.05 | Category: Sem categoria | Tags:

    BAILE DO SANTO AMARO 🏡👨🏽‍🦳 ( RUMO AOS 20k ) auf Twitter: "O BAILE ALÉM  DE SER O LAZER DA COMUNIDADE, TBM BENEFICIA O DJ, O AMG DA EQUIPE DE SOM, AS
    Baile do Santo Amaro (@BailedoSA, Tweet, 6 março 2020)

    Pessoal, bom dia!

    Esta é a última atividade do Curso de Difusão de Conhecimento “Música, Dança e Novas Mídias Sociais na Educação de Jovens e Adultos (EJA)”. Leia o texto abaixo do Prof. Manoel Messias Pereira, feito para a aula-espetáculo “A Genesis do Ritmo” (Cf. Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=nMdOLXaSvwo&t=8s) e deixe seu comentário. Bom trabalho!

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    A vida de cada um de nós é feita de ritmos (Manoel Messias Pereira).

    A vida de cada um de nós é feita de ritmos, é feita de compassos, de silêncios, de intervalos, de movimentos e repetições. Vivendo no interior do Estado, via em cada sábados e domingos as pessoas reunindo -se para fazer e apreciar músicas. E nem sempre essas músicas estavam na ordem do dia. Era de uma visão, conhecida como músicas regionais ou caipira.

    O meu primeiro contato com a música foi observando os primeiros sanfoneiros ou acordeonistas apresentarem-se nos bailes de barracas. Geralmente ficavam sobre uma mesa de madeira ou um tablado, onde tocavam os múltiplos ritmos, como os boleros, as valsa, os xaxados, os recortados, rancheiras, baião, pagode sertanejo, o samba, as polcas, os rasqueados, cana verde, ritmos que quase ninguém hoje pronuncia-se.

    Um belo dia eu vi uma bateria na minha casa o meu tio Leonício, que Deus tenha o bem guardado no Reino do Céu, como diria meus parentes. Ele comprou uma bateria e pela história do instrumento, descobri que foi a bateria do Tio Dong, que se apresentava no “Maraquiara”, uma boate bem falada aqui em São Jose do Rio Preto -SP.

    Logo vi pessoas amigos dele chegar e começarem a tocar, pessoas como o Toninho (Índio) que por muito tempo tocou com o “J” (um acordeonista), que foi o pai do músico Vavá, que acompanhou diversos artistas em São José do Rio Preto. E na época fez um Trio entre Vavá, Vadeco e Nestor. Hoje Vadeco e Nestor já estão também com Deus.

    Vi o meu tio esforçando para tocar, aquele maluco só sabia fazer um acorde da música dos Beatles no contrabaixo e fazia esse acorde quase uma hora sem parar. Minha avó dizia “não aguento mais, vou dormir na rua”. E quando ele saia, eu tentava ocupar a bateria com os ritmos na cabeça e ia assim tentando evoluir sozinho na bateria.

    Uma das coisas que observei é que os ritmos todos tem o uso da matemática, e tudo é contagem, portanto fui aprender isto sozinho. Até que ao entrar na escola, tive uma professora Dona Vanda Maia, que falava dos tempos das músicas, falava e apresentava a pauta e o pentagrama. Gostava de hinos cívicos e de músicas folclóricas. Quando eu falava dela e sobre as suas aulas diziam: “coitada é uma solteirona”. Mas deixa pra lá.

    O ritmo é um termo grego “rhytmos” que significa qualquer movimento regular, constante e simétrico. É uma palavra que parece simples, porém guarda aspectos complexos. E o primeiro momento quando se fala em ritmos fala-se de ritmos cardíacos e eu vejo até um certo movimento que o coração é impulsionado pelo sangue através da sístole, quando o coração se contrai. Mas quando penso no coração penso na emoção. E nos ritmos que causam toda a emoção que fizeram e fazem nas pessoas ao ouvir a música, dançar, bailar, e assim dei o nome para essa aula de “Genesis do Ritmo”.

    A palavra Gênesis traduz a criação do mundo. Na criação do ritmo do mundo está a música, o movimento, a arte de encantar, dançar, bailar e namorar. E assim fui apresentado vários ritmos como: o xote, um ritmo muito conhecido por aqui pelo interior do Estado de São Paulo, executado nos forrós, que dizem ser binário ou quaternário. Na prática conta-se 1, 2 e 1, 2, 3 e no quarto tempo volta-se para o primeiro. Um ritmo bom de dançar. Entre as músicas conhecidas destes ritmos temos: “A menina linda”.

    Outro ritmo conhecido por aqui é o rasqueado, a polca e a polca paraguaia, que é um ritmo que se toca muito nos “Bailes de Barracas”. Eu posso testemunhar que fez e faz muito sucesso em todo o interior, assim como em todo Mato Grosso do Sul, onde estive tocando aos 16 anos de idade.

    Outro ritmo apresentado foi o samba sertanejo, que tens alguns aspectos um pouquinho diferente e nasceu mais no campo por aqui, um pouco diferente do samba carioca ou baiano. A contagem é 1, 2 e 3. É um canto violeiro.

    Outro momento que recordo é a música que virou uma febre nos forrós e que foi modificada e gravada por Roberto e Meirinho, dupla nascida próxima de São José do Rio Preto, na cidade de Guapiaçu. A música que fala: “Ôh mais tu tá comendo vidro menino? / Não pai, eu tô chupando é pedra d’água”, foi recriado o ritmo que eles gravaram lá na Fazenda da Matinha, onde tinha o campo de futebol e no sábado tinha o “Baile de Barraca”. E quem fez essa mudança na música original foi o Benedito Natal Barbosa, o Ditão, que é funcionário lá na Câmara Municipal, é o porteiro lá. A testemunha disso é o locutor Marcelo Gonçalves, que foi vereador, deputado e secretário de estado. O Meirinho disse que iria gravar a música do jeito que nós tocávamos. E gravou e foi um sucesso. Essa era a forma como nós tocávamos xote, quase vanerão, bem-humorado.

    Na aula-espetáculo: “A Genesis do Ritmo”, fui narrando trechos dos ritmos, tais como, valsas, valsinhas, arrasta-pés, que sempre inspiraram muito. Antigamente nos bailes, dava sempre vontade de rir, pois via cada ser dançante como um personagem do próprio movimento. É bastante interessante.

    Toquei bateria com vários amigos, tais como o Graciani (falecido), que a última vez que tocamos juntos estávamos eu o falecido Avelino e com uma guitarra na Creche de Livia. Hoje é uma creche da prefeitura, mais na época era uma creche espírita. Toquei com os Irmãos Moreno, o Ditão e com o Euclides Poiana.

    O Euclides Poiana adorava tocar uma “rancheira mazurca”. Um homem simples, muito correto e que gosta de tocar sanfona. Andamos por toda a região, hoje a idade chegou para nós dois. Ele é natural de Potirendaba, mas hoje reside em São José do Rio Preto. E muito dos companheiros todos já faleceram. Por muito tempo apresentávamos todos os domingos no “Clube da Viola” lá no “Asa Delta”.

    Nós que moramos no interior fazemos coisas na música que muitos dos historiadores não conseguem registrar, muita coisa foi apresentada por aqui e foi enterrada, sem que ninguém soubesse. Aqui próximo de São José do Rio Preto havia a Festa de São Sebastião em que se fazia, comidas e doces para todos. A festa saia numa procissão que ia de casa em casa e numa das fazendas fazia a festa que encerrava com o “Baile de Barraca”. Era interessante ver aqueles homens passarem banha de porco no cabelo e ver tudo aquilo encher de poeira. Eu mesmo fiz uma destas festas com o Benedito, que quase rasgava sanfona de tanto abri-la.

    Outros lugares que íamos enfrentávamos desentendimentos e desinteligência, mas tínhamos a elegância de apenas tocar e anunciar a coroação da rainha, enquanto o povo brigava. Mas isto faz parte de um acervo maior do que as memórias. É um Patrimônio Cultural que precisa e deve ser preservado para o bem da história, para o bem do Brasil.

    Manoel Messias Pereira, músico e professor de história.