• 100 Anos de Preconceito contra os Caipiras

    Date: 2015.05.06 | Category: CECMundoRural | Tags:

    Bom dia amig@s do mundo rural! Tudo bem?

    A imagem acima é uma foto do fungo orelha-de-pau (Polyporus sanguineus ou Pycnoporus sanguineus), também chamada urupê e pironga. Trata-se de um fungo da família das poliporáceas. Costuma crescer sobre troncos de árvores em estado de decomposição. Não é comestível, podendo levar à morte.Se adapta bem aos trópicos.Ganhou este nome por parecer muito com uma orelha e com uma madeira. Urupês era como Monteiro Lobato se referia aos caipiras, especialmente do Estado de São Paulo, em seu livro homônimo. Urupês é uma coletânea de contos e crônicas do escritor brasileiro Monteiro Lobato, publicada originalmente em 1918. Inaugura na literatura brasileira um regionalismo crítico e mais realista do que o praticado anteriormente, durante o romantismo. A crônica que dá título ao livro traz uma visão depreciativa do caipira, chamado pelo autor de “fazedor de desertos”, estereótipo contrário à visão romântica dos autores modernistas. No ano de 2014, completam 100 anos de outro texto muito famoso de Monteiro Lobato: “Velha Praga”. A proposta é fazer um comentário do texto abaixo, originalmente publicado no Jornal Diário da Região, no começo de 2015. Boa leitura! Prof. Fábio Fernandes Villela.

    ***

    100 anos de preconceito contra os caipiras

    No ano de 2014, completaram 100 anos dos famosos textos: “Velha Praga” e “Urupês” de Monteiro Lobato. Nesses textos, Lobato inventou um “tipo-ideal” preguiçoso e madraceiro denominado “Jeca Tatu”. O personagem criado por Lobato sempre contrastou radicalmente com a profunda valorização do trabalho entre as populações caipiras do Alto Paraíba, nas vizinhanças da mesma região montanhosa em que Lobato atuou como promotor público e fixou as impressões que definiram sua personagem. Diversos pesquisadores se contrapuseram às falácias arquitetadas por Lobato, comprovando a valorização do trabalho pelas populações “caipiras”, dentre eles, Antonio Candido em “Os Parceiros do Rio Bonito”.

    Atualmente os “caipiras” são considerados “comunidades tradicionais”, conceito explicitado no documento da “Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais”. “Comunidades tradicionais” são grupos culturalmente diferenciados que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição oral.

    Considerando os diferentes contextos geográficos e as peculiaridades culturais que envolvem essas comunidades, o documento listou 16 populações tradicionais “não indígenas” brasileiras: caiçaras, caipiras, babaçueiros, jangadeiros, pantaneiros, pastoreio, praieiros, quilombolas, caboclos/ribeirinhos amazônicos, ribeirinhos não-amazônicos, varjeiros, sitiantes, pescadores, açorianos, sertanejos/vaqueiros. Os caipiras são hoje, em grande parte, sitiantes, meeiros e parceiros que sobrevivem precariamente em nichos entre as monoculturas do Sudeste e Centro-Oeste, em pequenas propriedades em que desenvolvem atividades agrícolas e de pequena pecuária, cuja produção se dirige para a subsistência familiar e para o mercado.

    Passados 100 anos da criação do “Jeca Tatu”, padecemos, no dia-a-dia, da intervenção teórico-metodológica de Lobato. Em nossas pesquisas acadêmicas emergem o preconceito contra a origem geográfica e de lugar, especialmente com relação aos alunos de meio rural de nossa região, que vem estudar na cidade, denominados de “jeca tatu”, “capiau”, “orelha de pau”, “pé-vermelho”, “chico bento”, “caipora”, etc. Este tipo de preconceito é justamente aquele que marca alguém pelo simples fato deste pertencer ou advir de um território, de um espaço, de um lugar, de uma vila, de uma cidade, de uma província, de um estado, de uma região, de uma nação, de um país, de um continente considerado por outro ou outra, quase sempre mais poderoso ou poderosa, como sendo inferior, rústico, bárbaro, selvagem, atrasado, subdesenvolvido, menor, menos civilizado, feio, ignorante, culturalmente inferior, etc.

    Na pesquisa realizada nas escolas da região, mais de 80% dos alunos diziam que haviam visto atitudes preconceituosas. A maioria das ações vem em forma de “brincadeira”, ou seja, pode ter grande carga de maldade, mas vem lacrada por um envoltório de algo mais “leve”, mais aceitável, e não algo “pesado” como um xingamento preconceituoso. As “brincadeiras” preconceituosas, também conhecidas hoje por bullyng são as que mais ocorrem no meio escolar. É através dela que os preconceitos em sua grande totalidade ocorrem, quase nunca é uma “coisa séria” raivosa, mais sim uma “brincadeira”, algo que todos, inclusive professores e corpo de gestão e de funcionários da escola, levam na brincadeira e fazem de tudo para que a “vítima” entenda como uma brincadeira, apesar de ser dolorida e humilhante.

    A partir dos resultados dessa pesquisa, procuramos aperfeiçoar a formação de nossos professores e os sensibilizamos para trabalhar o preconceito contra a origem geográfica e de lugar em jovens de escolas de meio rural como elemento de constituição da humanização do educando e devem defender seu espaço no currículo escolar, pois é na escola que o indivíduo irá se apropriar deste conhecimento de forma direta e intencional, permitindo ao educando ascender do “senso comum à consciência filosófica”. A abordagem da temática do preconceito contra a origem geográfica e de lugar contribui para que, nesta época de acirramento de intolerâncias, por exemplo, contra os nordestinos, possamos compreender e aceitar as diferenças, entendendo-as como produto de percursos distintos que os grupos humanos fizeram na História.

    Fábio Fernandes Villela: Doutor em Sociologia, Departamento de Educação, UNESP/S. J. Rio Preto, e-mail: fabio@fbiofernandesvillela.pro.br