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  • O Pandeiro Cigano

    Date: 2020.08.20 | Category: CECMundoRural | Response: 4

    (Pandeiro Cigano. Fonte: Elo 7).

    Bom dia a tod@s! Convidamos a tod@s a ler, refletir e escrever no final do blog de aula, participantes do projeto e/ou público em geral. Mais um “homework” ou dever de casa. Texto escrito por Asséde Paiva para o website Benficanet em 2014*. Abraços, Prof. Fábio Villela.

    O Pandeiro Cigano

    Que os ciganos são extremamente musicais não padece dúvida. Que são exímios violinistas nem se fala! Estivemos analisando nossa iconografia e verificamos que em cada dez, oito são de ciganos empunhando ou tocando violinos; outras no-los apresentam tocando os mais diversos instrumentos sejam eles de percussão, sopro ou de cordas. Assim, vemos ciganos com gusla, violão, guitarra, bandolim/mandolim, violino, contrabaixo, acordeão, sanfona, flauta, tambor, castanholas e pandeiro. Vamos abordar este último.

    Claro que não sabemos se ciganos criaram os primeiros pandeiros; é impossível de se saber, provas conclusivas não há. Temos imensa iconografia mostrando ciganos e pandeiros desde velhos tempos. Garantimos que, no Brasil, os ciganos foram divulgadores do pandeiro, como o foram do violão de sete cordas e das castanholas. Aliás, temos desenho de uma estampa de ciganos tocando “tambores” na Pérsia, por volta de 1519, olhando criteriosamente, notamos que eram pandeiros.

    Comecemos do começo: O que é pandeiro? O dicionário Aurélio, século XXI, assim o define: Pandeiro [Do esp. pandero.] S. m. 1. Instrumento de percussão, composto de um aro circular de madeira, guarnecido de soalhas, e sobre o qual se estica uma pele, que se tange batendo-a com a mão, com os cotovelos, nos joelhos e até nos pés; tambor basco. [Dim. irreg., nesta acepc.: pandeireta. (V. adufe). Adufe é um pequeno pandeiro de formato quadrado, de procedência mourisca. O termo é de origem árabe, ligado a duff, tímpano.

    Parece que a definição de pandeiro é bastante clara. Adicionamos que se bate ou se toca com as pontas dos dedos, riçando os dedos; com os nós dos dedos; com o pulso, com joelhos e até com os pés. E os espertos ainda fazem malabarismos com ele. Compõem um pandeiro: Fuste, aro de madeira ou metal escovado; pele, selecionada de cabra; conjunto do esticador, peças de aço ou latão, cromadas ou niqueladas; platinelas ou soalhas, placas abauladas de metal, sobrepostas; abafador, chapa plana, fina de latão, colocadas entre as platinelas. Então partamos para sua história.

    Quem inventou o pandeiro? Não se pode dizer quem o criou. Na antiguidade já usavam instrumentos parecidos, similares e cremos que foi evolução do tambor, smj. Tambores grandes foram sendo reduzidos até ficarem bem próximos do tamanho do que hoje falamos pandeiro. Depois, foi colocar guizos e mais tarde metais que nos deram os sons atuais. Pandeiro, também conhecido como tamborim, cimbaleto, tamburino, tambour de basque, foi encontrado em variadas formas na Assíria, Egito, China, Índia, Israel, Pérsia, Peru Groenlândia, toda Ásia Central e na pré-história Britânica.

    O site Capoeira do Brasil nos informa que o pandeiro foi introduzido no Brasil pelos portugueses e dá a data e local; 13 de junho de 1549, na procissão de Corpus Christi. Não sabemos em que documento se baseou o autor para informação tão precisa, mas lhe damos crédito, mesmo porque em 16 no livro de Belmont No tempo dos bandeirantes lemos: “há na Vila [referia-se a São Paulo] um homem original: é o soldado Manuel Chaves que possui uma raridade – o único pandeiro que aparece nos inventários…”

    Em La Gitanilla, de Miguel Cervantes Saavedra, lemos que “Preciosa [uma cigana] en Madrid fue un dia de Sant’Ana [...] El aseo de Preciosa era tal, que poco a poco fue enamorando los ojos de cuantos la miraban. De entre el son del tamborin y castañetas y fuga del baile…”. O romance supra foi escrito entre 1547-1616, período de vida de Cervantes.

    Parece que o pandeiro ou seu antecessor foi levado à Espanha pelos muçulmanos, quando invadiram a Península Ibérica, em 711. O pandeiro é retratado em lamentações funerárias, em desfiles alegres, em festas, em mãos de anjos e, nas mais rústicas formas, foi muito popular na Idade Média. Pouco mudou de lá para cá.

    Na Internet, encontramos página referente ao pandeiro na Bíblia. Transcreve-se: “Gênesis 31:27. Why didn’t you tell me, so I could send you away with joy and singing to the music of tambourine and harps?”. Outras citações estão em Salmos 68:25; 81:2; Êxodo 15:20; Isaias 5:12; Samuel 6:5 Juízes 11:34; Jó 21:12; 149:3; 150:4; Isaías 30:32; Ezequiel 29:13; Jeremias 31:4,1; Crônicas.13:8.

    Antes de 1500, em Portugal, entre muitos instrumentos de corda ou de pele já aparecia o pandeiro, o adufe, o atabal ou atabaque, que foram tocados por cristãos, mouros e judeus. Entre 1519-1590, o sultão Mohammad pintou ciganos tocando tambores muito semelhantes a pandeiros. Um olhar atento verá que é pandeiro mesmo. No século dezoito, o pandeiro foi introduzido amplamente em óperas e, no século dezenove, tornou-se mais popular ao ser usado por Igor Stravinsky e por Berlioz.

    Esmeralda, a heroína cigana no livro O corcunda de Notre Dame, escrito em 1831, tocava um pandeiro enfitado. Em 1841, G. Wallis Mills ilustrou a capa de O cigano, de George Borrow, com uma dança cigana, onde a dançarina agitava um pandeiro. Em 1897, João Machado Gomes, o João da Baiana, introduziu o pandeiro no samba. Gustave Doré, em 1872, pintou o quadro Gitanos, com uma cigana segurando o pandeiro. O quadro Moça cigana/espanhola, foi pintado por John Phillip (1817-1867). Sir Richard Francis Burton, quando passou pelo Egito, pintou ciganas ghawazis tocando pandeiro. Isto se deu em 1841. É enorme a iconografia existente sobre ciganos e ciganas tocando pandeiros o que atesta visualmente que eles estão entre os primeiros a usarem tal instrumento.

    Em face destas considerações, é lícito deduzir que ciganos vindos de Portugal, degredados ou de motu proprio, bem como os calons oriundos de Espanha, para o Brasil, trouxeram e/ou divulgaram o uso do pandeiro, que depois foi assumido por negros em batuques, capoeiras e outras manifestações musicais. Vale relembrar que o primeiro cigano que veio para o Brasil foi João Giciano, com mulher e quatorze filhos, em 1568.

    Luís da Câmara Cascudo, em seu excelente Dicionário do folclore brasileiro, 2a edição do I.N.L., Rio de Janeiro, 1962, p.559, nos ensina muita coisa no verbete PANDEIRO. Permitimo-nos transcrever alguns tópicos:

    Instrumento de percussão, ritmador, acompanhador do canto pela marcação do compasso. Foi trazido ao Brasil pelos portugueses, que o tiveram através de romanos e árabes. Os pandeiros mais antigos não tinham pele, e apenas soavam pelo atrito de soalhas presas lateralmente… O pandeiro se brande, tange ou vibra. Em Portugal, de sua popularidade há o registro de Gil Vicente, no Prólogo do triunfo do inverno: Em Portugal, vi eu já / Em cada casa pandeiro! Os árabes conheceram os dois tipos: com pele ou apenas de guizos… Início da Catingueira, que faleceu em 1879, ainda cantava desafio batendo pandeiro enquanto o colega ponteava a viola, também chamada ‘guitarra’. No seu longuíssimo debate com Francisco Romano, em 1870 este diz: — Início, esbarra o pandeiro, / Para afinar a guitarra/. Silvio Romero registrou uma quadrinha pernambucana que dizia: Quando eu pego na viola / Que ao lado tenho o pandeiro/… O pandeiro voltou ao uso intensivo nas orquestras do Rio de Janeiro que deram prestígio aos conjuntos criados por todo o Brasil… O pandeiro é o ‘timpanum’ ou ‘timpanon’, das bacantes e dos sacerdotes de Cibele, ‘thof’ ou ‘top’, da Bíblia, ‘douf’’, árabe, ‘doeuf’, turco; fontes do mourisco ‘adufe’ e pandeiro retangular, tocado em Espanha e Portugal. É o ‘tympanum’, da versão dos Setenta: Summit psalmum et date tympanum: psalterium jucundum cum cithara. (Psalmus, LXXX, 2).

    Pelo que se lê, mestre Cascudo falou, tá falado. É o “magister dixit” do folclore. A seguir, uma poesia retirada da internet de autoria de Lúcia Silva:

    Os ciganos

    O bandolim cor de prata,

    o pandeiro multicor,

    faziam cantar e dançar,

    os ciganos e o amor.

    Ela sorrindo bailava

    com o pandeiro multicor.

    Ele garboso cantava

    uma canção de amor.

    A prata do bandolim,

    refulgia ao luar.

    Espalhando magia e sonho

    e um perfume no ar.

    Em volteios e risadas,

    sob a lua a reinar.

    Eles aos poucos levavam

    meu coração a dançar.

    E dançando seguindo

    com a música embalar.

    Fui despertando e descobrindo

    que estivera a sonhar.

    FINIS

    Referências no texto

    Capoeira do Brasil. Instrumentos. Link: www.capoeiradobrasil.com.br/instrumentos.htm

    Bíblia na Internet. Link: www.timbrelpraise.com/bible.htm

    * O escritor Asséde Paiva publica textos sobre Ciganos no espaço Ciganíada do website Benficanet. O escritor que tem uma verdadeira paixão pela história desse povo. É autor do livro: “Brumas da história: ciganos e escravos no Brasil”, lançado em 2012, onde se coloca em defesa dos ciganos e tenta mostrar com quanta intolerância, exclusão, preconceito, injustiças, vivem os ciganos há mil anos. No Brasil, desde 1568. Apesar da dificuldade de obtenção de fontes primárias, o escritor investigou com riqueza de detalhes, o envolvimento de ciganos no processo escravista no Brasil.

    Ciganíada no Benficanet: http://www.benficanet.com/ciganiada-especial-sobre-ciganos-por-assede-paiva.php).

  • Sara, a Negra: de Escrava a Santa, Protetora dos Povos Tradicionais na Pandemia

    Date: 2020.08.18 | Category: CECMundoRural | Response: 4