• Cordel A História do Caipira: de Jeca Tatu aos Sem-Terras

    Date: 2015.07.14 | Category: CECMundoRural | Tags: ,,,,,,,,,,,,

    Bom dia amig@s do mundo rural! Tudo bem?

    Deixo aqui mais uma dica de livro:  A História do Caipira – De Jeca Tatu aos Sem-Terras. O autor Jesus de Burarama defende, em versos de cordel, o orgulho de ser caipira. Burarama é o escritor que ajudou a criar o “Caipirapuru” e utiliza a literatura como meio para manter viva a tradição do povo tipicamente interiorano. Leia a reportagem abaixo de Gelson Netto. Saudações, Prof. Fábio Fernandes Villela.

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    Jesus de Burarama defende, em versos de cordel, o orgulho de ser caipira

    Enquanto para muita gente o rótulo de “caipira” é encarado de forma pejorativa e até mesmo ofensiva, para o escritor Renato de Jesus Souza Silva, ou simplesmente Jesus de Burarama, trata-se de motivo de orgulho. Preocupado com o desaparecimento das tradições culturais interioranas, Renato tornou-se um ativista em defesa de um ideal que se esforça para manter vivo através de sua arte, na literatura de cordel, e também de sua atuação na organização de eventos, como o Caipirapuru, em Irapuru.

    “A cultura caipira é a base da formação do povo paulista. O caipira é tipicamente paulista. O reconhecimento da cultura caipira significa a valorização daquilo que está na nossa origem”, afirma o cordelista.

    Ele nasceu em 21 de novembro de 1957, na localidade de Burarama, hoje município de Capitão Enéas, na região de Montes Claros, no norte de Minas Gerais, mas chegou ainda criança ao Oeste Paulista, com a família. Dos cinco aos dez anos de idade, morou em Irapuru e depois se mudou para Presidente Prudente, onde vive desde então.

    Aos 17 anos, obteve o primeiro emprego formal, no Sindicato Rural de Prudente, onde ajudava na organização das provas de rodeio em cavalos realizadas na Exposição de Animais. Em 1974, acompanhou a fundação do Rancho Quarto de Milha, no qual trabalhou inicialmente de 1979 a 1989 e para onde voltou há quatro anos e hoje trabalha como secretário-executivo. Entre 1985 e 1987, ocupou o cargo de presidente da Sociedade Hípica.

    “Ajudei a organizar as primeiras provas de baliza, tambor e laços com cavalo de trabalho na região. Criamos campeonatos regionais de cavalo de trabalho, com a repetição daquilo que acontece no dia a dia de uma fazenda. O quarto de milha é a melhor raça de trabalho com o gado”, explica o cordelista, que em sua trajetória também trabalhou na Sociedade Rural do Sudoeste Paulista.

    Já a ligação de Renato com o cenário cultural começou na adolescência, na época em que estudava na Escola Estadual I.E. Fernando Costa, uma das mais tradicionais da cidade, em festivais de música e cineclubes. Na década de 1980, ele participou de atividades que ajudaram a levar exibições de cinema para escolas e bairros prudentinos. Em 1982, criou na cidade o Clube do Meio.

    Na década de 1990, trabalhou na Delegacia Regional de Cultura e, nos anos 2000, foi coordenador da Oficina Cultural Regional Timochenco Wehbi.

    Porém, a grande virada na vida de Renato se deu em 2001, quando conheceu o médico e violeiro Júlio Santin, que mora em São Paulo, mas nasceu em Pacaembu e possui familiares em Irapuru. A partir da amizade, surgiu a ideia de criar um encontro de violeiros que se transformou no que é hoje o Caipirapuru, uma das festas caipiras mais importantes do interior do Estado, realizada anualmente.

    Em 2002, Renato criou a confraria Clube Amigos da Viola e, no ano seguinte, surgiu pela iniciativa dele o Instituto Matura, o Movimento de Apoio ao Turismo Regional, que divulga o potencial do Oeste Paulista.

    Em outro grande passo em sua trajetória, Renato começou a escrever versos em cordel em 2004, por influência do violeiro Gideão da Viola, de Barretos (SP), e assumiu como tema literário a cultura caipira. De lá para cá, o escritor já concluiu 40 folhetos com poemas impressos artesanalmente, como forma de popularizar o trabalho.

    “A base do cordel é a tradição oral, que forma o jeito de ser e agir de uma sociedade. O principal meio de perpetuação da nossa tradição é a oralidade. Foi uma bandeira que levantei para resgatar a nossa cultura caipira”, enfatiza.

    Em 2009, o escritor foi premiado pelo Programa de Ação Cultural (Proac), da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, que lhe permitiu a publicação do livro de cordel sobre o povo caipira, obra intitulada “A História do Caipira – De Jeca Tatu aos Sem-terras”. Também pelo Proac, ele voltou a ser premiado em 2010, com o projeto Comitiva Caipira, uma mostra itinerante da cultura popular. No mesmo ano, o projeto foi reconhecido pelo Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel (Edição Patativa do Assaré), do Ministério da Cultura.

    Pela Timochenco Wehbi, Renato já passou por diversas cidades da região com oficinas de literatura de cordel nas quais promove o “confronto” entre o Saci-Pererê e o Halloween. O assunto é encarado pelo escritor com críticas voltadas às escolas, tanto particulares quanto públicas, que, na visão de Renato, hoje em dia dão mais destaque ao chamado “Dia das Bruxas”, celebrado especialmente nos países de língua inglesa, do que ao folclore tipicamente brasileiro, cujo Dia Nacional é comemorado em 22 de agosto.

    A preocupação do cordelista é tão intensa que ele já aderiu à campanha nacional que pretende fazer com que o Saci-Pererê seja escolhido o mascote do Jogos Paralímpicos que serão disputados em 2016 no Rio de Janeiro (RJ).

    “Os alunos hoje em dia não sabem contar histórias. Os trabalhos escolares sobre o folclore são apenas formais, tirados da internet. O folclore é visto como uma obrigação nas escolas, mas não deve ser assim. Deve ser visto como a manutenção de uma tradição. A oralidade está morrendo, com os causos, as anedotas e os acalantos. Os pais não cantam mais para os filhos dormirem, mas colocam um CD para tocar”, argumenta.

    Além de municípios do Estado de São Paulo, a Comitiva Caipira também já passou por Porto Murtinho e Amambai, no Mato Grosso do Sul. No ano passado, junto com Júlio Santin, ele fez uma apresentação de cordel caipira em um simpósio na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas (SP).

    Entre os cordéis declamados por Renato, o que mais faz sucesso com o público chama-se “Lamento Caipira Moderno”, em que o escritor aborda os impactos da expansão do cultivo da cana-de-açúcar.

    (Reelaborado a partir da reportagem disponível em: http://www.ifronteira.com/imais-perfil-51520).